Uma história sobre histórias

Por Larissa Lenarduzzi
E-mail: larissa.lenarduzzi@folhar.com.br

Eu tenho algo que sempre me acompanhou desde cedo: a curiosidade. Não consegui abandonar a fase dos “porquês” na infância. Nada me deixa mais satisfeita do que conhecer novas histórias e ver o porquê delas. O óbvio, o já conhecido, o clichê diário, pouco ou nada me instigam: preciso pisar na areia funda e entrar no mar, mesmo revolto.
Conhecer pessoas desconhecidas e lidar com elas diariamente,me fez ser uma amante de novas perspectivas, e me fez entender que um cada guarda em si o mais incrível – a sutileza de sua individualidade, coberta de expectativas, sonhos e caminhos. A questão me faz querer sorver o máximo que posso e me surpreender com isso, mesmo que a surpresa não seja das mais agradáveis. Cada qual tem suas paixões e se surpreendem com algo, ainda que incompreendidas. Aprendi que ouvir relatos, saber dos detalhes, questionar a cada resposta dada, me faz sentir viva e não consegui separar a vida da pauta – como uma criança tento, todos os dias, enxergar a vista da minha janela sob algumas perspectivas variáveis. Cada pessoa traz um enredo diferente e muitas vezes, me pego revendo a conversa com a senhorinha do andar de cima, o bate papo com o moço que trocou o corte da cana pelo amor ao tango, o outro que dedicou a vida a entender o Universo, a senhora que toca sanfona no calçadão ou com a garotinha que, cheia dos porquês, quer ser astronauta ou bailarina. Sou fascinada pelos caminhos diversos, personalidades diferentes, pela investigação do que ainda não sei. O que não sei é surpreendente e me cativa: como um caminho novo a ser desvendado, como um mistério a ser resolvido. Me descobri detetive e detenta dos porquês. Me atraem todos os dias os personagens, complexos ou não, me alimenta as estórias,as histórias e (dês)andar da vida. Do mesmo modo que o inverso ocorre na mesma proporcionalidade por aquele que se apresenta por achar que ter substitui o ser,em nada me acrescenta. Os anos me trouxeram muitos desconhecidos admiráveis e alguns conhecidos desprezíveis.

Escrevo pensando no “seo” Zé, o motorista da van que, vendo que muitos de nós deixamos a família para estudar, sacrificava uma hora do seu sono para nos servir, todos os dias, de café e chá quentes acompanhados de bolachinhas frescas, compradas sempre no dia anterior. Escrevo pensando na mulher que contou a felicidade de estar perto dos filhos e após alguns meses, descubro ter sido assassinada pelo esposo. Escrevo por um amigo que está longe e confessou-me o sofrimento pela falta de oportunidades. Pensei na modelo que, sendo modelo, recebeu ordens de sorrir e manter-se calada. Dedico a todos que, por um breve acaso, me fizeram rever ações e valores. Aos que guardam, de alguma forma, respeito e humanidade, ainda que em tempos de cólera.

Escrevo pela criança tímida que, graças à timidez, perguntou aos livros, às músicas e à imaginação.

Escrevo a todos conhecidos e desconhecidos que – por anos, dias ou minutos de convívio- tornaram-se admiráveis e, de maneira positiva ou não, questionáveis.

Escrevo pela medida do sim e do não. Pelo que me é amado ou indiferente. Escrevo para sentir o gosto das novas palavras pousando sobre o cotidiano pesado, e que através da trama de letras e significados, me trás uma nova significação.

Do dia: “A minha intimidade? Ela é a máquina de escrever. Sinto um gosto bom na boca quando penso. ”
Clarice Lispector

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