Sobre a crueldade na linha de frente

Larissa Lenarduzzi
larissa.lenarduzzi@folhar.com.br

Ouvi certa vez de um professor de história que a maior vítima numa guerra é a verdade. A veracidade sempre que destruída, deixa cicatriz aos que defendem, a qualquer preço,a lisura e justiça a quem merece. Direta ou indiretamente, também diz respeito aos que não tem capacidade de autodefesa. E ainda mesmo que a verdade não triunfe a maior catástrofe que pode haver entre bombas e crueldade é o fim da infância.
Na Síria, hoje, são mais de cem mil crianças na linha de frente da Guerra – o estado islâmico copia o recrutamento e treinos executados pelos soldados nazistas para a nova geração de terroristas. Surpresa? – Crueldades ímpares!
Me surpreenderia se as crianças aliciassem os adultos. Mas como dizem os mais velhos: “mais fácil do que tirar todos os doces da mão de criança” é também prometer a elas que daquilo ali ela terá todos os castelos e sonhos realizados e doces que sempre quis. A Terra do Nunca a um passo de suas mãos.
As crianças não se safam da maldade nem dos perversos por conta de serem ingênuos e verdadeiros. Haja vista o holocausto, período sombrio da Segunda Guerra Mundial em que os nazistas transportaram as crianças judaicas dos guetos de Varsóvia, em que viviam com as famílias e as levavam até Auschewitz-Birkenau (um dos maiores campos de extermínio) na Polônia, porque eram vistos como uma ameaça aos olhos azuis e cabelos claríssimos da ideologia ariana de Hitler. Não pouparam nem os pequenos da “inumanidade humana” e usaram-nos como ratos de laboratório e como experimentos laborais.
Pensei nos pequenos porque ontem os vi aos montes correndo pela praça com a chegada do papai Noel. E vê-los assim, desfrutando de suas imaginações, me faz respirar por todos os outros. E pensar em todos os outros. E gritar por todos os outros que não tem como correr na praça. Pensei também porque ontem foi publicada uma série de fotografias elencadas como mais importante para a humanidade e, por menos surpreendente que possa parecer, a guerra permeia quase que noventa por cento de todas as imagens – humanidade! E ai, me fizeram refletir mais um pouco acerca daquelas que foram eternizadas num flash – a vietnamita que corre em frente ao tanque de guerra, nua e sozinha. O garotinho que foi encontrado esse ano à beira mar, afogado – também fugido da guerra. A Anne Frank que com coragem de um gigante relata como é fugir da perseguição diária dos nazistas. O pequeno sudanês que divide o espaço das lentes com um abutre à espera de sua morte (que paradoxalmente sobreviveu e o fotografo não suportou o peso de ter feito essa imagem). A todos que são fotografados diariamente na Síria e esperam sair dali com vida.
Na infância é onde moram os céus mais azuis. Os cenários mais multicolores. As histórias com personagens encantados – princesas, dragões, dinossauros, super poderes e sonhos, cima de tudo, sonhos! Os heróis salvam o fim do dia e salvam a vida. E dão toda a esperança de que tudo vai correr bem. A criança não tem receio de pintar a pele de azul, o cabelo de roxo e se relacionar com todos os tipos de diversidades. Ela ama conhecer, tocar, sorver!
Se a gente cresce e perde um pouco dos sonhos e da esperança que um dia nossa criança teve, a gente perde também, em parte, nossa essência. Mas esse é, logicamente, um processo natural de maturidade – transformar algumas tonalidades de cor conforme muda o cenário. Tocar a música conforme pede o público.
Metaforicamente podemos perder parte da criança que havia em nós. O grande problema mora quando começamos a perder as que moram ao lado por conta do nosso comportamento. A guerra, o ódio, o ego, as brigas infladas e os desafetos devem se abster ao universo adulto. A partir do momento em que isso atinge a infância, certamente perdemos boa parte do que um dia chamamos de humanidade.
A criança que você foi teria orgulho do adulto que você se tornou?

Sugestão musical: Ney Matogrosso – Poema

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