Folha Regional

O Luto

Meus queridos pacientes pedem todos os dias para que eu possa falar um pouco sobre o luto e de como lidar com ele. Não é fácil falar sobre morte, isso faz parte da sociedade e do modo que fomos criados.

Desde a infância fomos educados a não falar sobre o luto e a proteger as pessoas que amamos quando nos deparamos com a morte. Talvez seja esse o motivo para que não consigamos lidar com o tema sem que gere muito sofrimento. “Relutei em falar sobre o luto, pois queria fazer um texto de forma leve e ter a resposta que vocês tão esperavam, uma forma de diminuir a dor das pessoas”.

Então fui estudar, me entreguei aos livros e percebi que não existe fórmula, fator de proteção ou estudo para lidar com a morte. A única forma de se proteger, de se preparar ou de diminuir o sofrimento é não amar. O luto é o preço do amor. Independente da religião, ninguém está preparado para a morte. Muitas pessoas chegam ao meu consultório esperando que eu tire a dor de uma mãe que perde um filho, ou que eu tenha a explicação que justifique a perda. Sempre respondo da mesma forma:

A medicina ainda não está tão avançada que possua uma medicação que tire a dor da perda, mas temos como amenizar. Estou com você, ao seu lado e a partir desse momento vou compartilhar essa dor com você, para que juntos podemos enxergar o recomeço. A partir desse momento, estamos juntos, leitor.

O primeiro passo é entender que o luto não é uma doença, não é Depressão, é apenas o luto, a dor de perder alguém que amamos. E ele tem que ser vivido. Cada um vive de uma forma diferente. Temos que chorar e nos permitir sentir de forma mais intensa possível, sem ter vergonha de mostrar fragilidade, fraqueza, pois se não vivenciado, algum momento da vida, o luto vai bater na nossa porta.

Essa é a explicação para pessoas depois de muitos anos começam sentir o luto de um ente querido ou do fim de um ciclo de vida. O luto não representa apenas a morte e sim o rompimento de um ciclo em nossas vidas. O período mais crítico é do primeiro ano, onde nos deparamos com as datas importantes, com a quebra da rotina, com o fato de aceitar que aquela pessoa que tanto amamos não estará fisicamente entre nós.

A vida muda e a gente reaprende a nova rotina e muitas vezes temos que amparar a pessoa que está sofrendo e nos ampararmos quando o luto bater em nossa porta. Muitas pessoas, acredito que na maioria das vezes, são pessoas, que não fazem parte da nossa família, mas sim pessoas que apareceram em nossas vidas com a função de diminuir a nossa dor. Então são anjos? Talvez. Pessoas que aparecem em nossas vidas e são responsáveis por preencher nossos corações.

Nenhuma teoria é capaz de explicar a dor, a experiência é única. Cada um vive ao seu modo e temos que aprender a respeitar. Muitas vezes nos deparamos com pessoas que não demostram sofrimento. Isso significa não estar sofrendo? Jamais. Nunca julgue o sofrimento alheio. Cada um sofre, ama, sente de forma diferente.

O mais importante é pensarmos que todos vão passar por isso um dia, independente da raça, cor ou classe social. Na dor somos todos iguais. E que diante do luto, da perda, da dor sempre avaliar valores internos. A dor nos faz crescer e nos transforma em pessoas melhores. Viva o dia como se fosse o último e o mais importante da sua vida. Não se proteja. Ame com intensidade, abrace e diga para as pessoas o quanto são amadas e o quanto são importantes para você e se algum dia o luto bater na sua porta, você tenha a certeza que viveu intensamente e que ele vai passar. A partir desse momento, resgate sua vida. E reflita:

Atrás da tempestade o sol brilha de forma muito intensa e brilha para todos.

E assim temos que seguir a diante.

E se por ventura você acredita que alguém não esta vivendo o luto de forma digna, ofereça ajuda, deixe que a pessoa fale por diversas vezes a sua dor, seja um bom ouvinte. Seja responsável por trazer luz para a vida de alguém.

Recomece todos os dias.

Procure a ajuda de um profissional especializado.

Boa semana!

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Kelin Kinsui

Kelin Kinsui

Drª Kelin Kinsui é Médica Psiquiatra e tem formação em Programação Neurolinguística e Hipnose Clínica.

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