*Hoje eu não irei escrever uma crônica ou um história de vida, mas irei homenagear uma das pessoas que fez parte do meu mundo e me mostrou que a literatura nada mais é do que nosso cotidiano bem escrito.

Larissa Lenarduzzi
E-mail: larissa.lenarduzzi@folhar.com.br

COMO SE FORA UM CORAÇÃO POSTIÇO

Rubem Braga

Nasceu, na doce Budapeste, um menino com o coração fora do peito. Porém ― diz um Dr. Mereje ― não foi o primeiro. Em São Paulo, há sete anos, nasceu também uma criança assim. “Tinha o coração fora do peito, como se fora um coração postiço.”

Como se fora um coração postiço… O menino paulista viveu quatro horas. Vamos supor que tenha nascido às cinco horas. Cinco horas! Cinco horas! Um meu amigo, por nome Carlos, diria:

― … a hora em que os bares se fecham e todas as virtudes se negam…

Madrugada paulista. Boceja na rua o último cidadão que passou a noite inteira fazendo esforço para ser boêmio. Há uma esperança de bonde em todos os postes. Os sinais das esquinas ― vermelhos, amarelos, verdes… ― verdes, amarelos, vermelhos ―borram o ar de amarelo, de verde, de vermelho. Olhos inquietos da madrugada. Frio. Um homem qualquer, parado por acaso no Viaduto do Chá, contempla lá embaixo umas pobres árvores que ninguém nunca jamais contemplou. Humildes pés de manacá, lá embaixo. Pouquinhas flores roxas e brancas. Humildes manacás, em fila, pequenos, tristes, artificiais. As esquinas piscam. O olho vermelho do sinal sonolento, tonto na cerração, pede um poema que ninguém faz. Apitos lá longe. Passam homens de cara lavada, pobres, com embrulhos de jornais debaixo do braço. Esta velha mulher que vai andando pensa em outras madrugadas. Nasceu, em uma casa distante, em um subúrbio adormecido, um menino com o coração fora do peito. Ainda é noite dentro do quarto fechado, abafado, com a lâmpada acesa, gente suada. Menino do coração fora do peito, você devia vir cá fora receber o beijo da madrugada.

Seis horas. O coração fora do peito bate docemente. Sete horas ― o coração bate… Oito horas ― que sol claro, que barulho na rua! ― o coração bate…

Nove horas ― morreu o menino do coração fora do peito. Fez bem em morrer, menino. O Dr. Mereje resmunga: “Filho de pais alcoólatras e sifilíticos…” Deixe falar o Dr. Mereje. Ele é um médico, você é o menino do coração fora do peito. Está morto. Os “pais alcoólatras e sifilíticos” fazem o enterro banal do anjinho suburbano. Mas que anjinho engraçado! ― diz Nossa Senhora da Penha. O anjinho está no céu. Está no limbo, com o coração fora do peito. Os outros anjinhos olham espantados. O que é isso, seu paulista? Mas o menino do coração fora do peito está se rindo. Não responde nada. Podia contar a sua história: “o Dr. Mereje disse que…” ― mas não conta. Está rindo, mas está triste.

Como se Fora um Coração Postiço
em O Conde e o Passarinho
Record. Rio de Janeiro. 2002.

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