Folha VC: Opinião do leitor sobre matéria do vereador Chandelly

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CURA-FUNDAMENTALIZADO

A situação de franco regresso social, moral, político e administrativo que vivemos na atualidade tem um ponto de convergência nítido, à união de conceitos retrógrados do fundamentalismo religioso com o que temos de mais atrasado na arcaica representação política. Quando esses dois interesses se juntam para oferecerem ao senso comum o que é mais fácil de ser absorvido por ele, entramos nesse funil de decadência que estamos agora entalados.

Eu tenho por premissa democrática analisar fundamentos e embasamentos factuais, por isso não vou perder meu tempo aqui para contestar esse monte de papagaiada que o nobre edil Chandelly – nosso representante público na seara legislativa municipal, se valendo da tribuna pública, do dispêndio do dinheiro público em toda à sua estrutura, inclusive no pagamento do seu salário -, gastou seu tempo em proferir.

Só vou lembrar ao povo que, se nada do que eu disser aqui for de encontro com as aspirações e o dito não representar a expressão de pensamento de mais ninguém, vocês não me pagam nada e serei só a voz de uma fração dos mais de 90 mil habitantes expressando democraticamente meu direito sagrado de opinião. Se os meus costumeiros 7 ou 8 se sentirem representados, também não me devem nada e só estou cumprindo com minha obrigação cidadã, sem ônus à pagar e nem à receber.

Não sendo eu charlatão, eu não tenho – como aqueles que dizem ter a tal receita da cura-gay -, uma mágica ou um truque para curar o “fundamentalizado”, mas posso impedir que outros entrem no precipício do fundamentalismo lhes puxando para a luz da realidade dos fatos.

Pois bem, o nobre edil Chandelly disse em tribuna que não é preconceituoso e abomina este tipo de sentimento, mas suas falas seguintes vão exatamente no sentido contrário desta afirmação primeira.

Quero me ater somente a contestar esta pequena parte: …o vereador classificou a exposição com o homem nu no Museu de Arte Moderna de São Paulo, onde as crianças tiveram contato com o mesmo, como uma pedofilia camuflada. “Alguns grupos a consideram como uma arte. Mas para mim, estes grupos estão querendo praticar sexo com crianças. E estes mesmos grupos estão lutando para que a pedofilia seja legalizada. Vamos combater este crime”, concluiu.

Só gostaria de usar o meu espaço democrático para dizer ao nobre edil que arte, na minha concepção, é tudo aquilo que nos leve à expressão dos nossos talentos, sentimentos e emoções; que eu considero arte toda e qualquer forma de expressão, até a da apresentação de uma folha de papel em branco, posto que ela pode nos colocar em reflexão da nossa total fugacidade e inexpressividade na complexidade do mundo. Se amassada, pode nos conduzir ao pensar de uma fragilidade aparente, que depois de desamassada ainda estará apta a receber uma letra, palavras que terão o poder de mudar todas àquelas certezas que tínhamos antes desta escrita, tudo isso numa única expressão manifesta em uma folha em branco. O homem nu do MAM estava emprestando seu corpo para uma expressão, estava devidamente o conteúdo sinalizado com aviso de nudez, conforme determina a lei. Ninguém ali estava obrigado a assistir um homem nu e sua expressão pretendida, se assim não desejasse. Quanto ao fato de que se é moral ou legal uma mãe permitir que sua filha toque nas partes íntimas do performático, aí já é outra discussão, uma discussão mais legal do que propriamente moral, e neste caso acho que cabe sim uma boa discussão legal, moral e democrática.

Todavia preciso lembrá-lo, que mesmo estando Vossa Excelência sob a blindagem da tribuna, mesmo tendo a mais absoluta certeza de que uma folha em branco, um homem vestido de burca ou nu, estando emprestado ao contexto de uma expressão, é o mais democrático direito de expressão artística e cultural, sinto desapontá-lo, mas não sou pedófilo como generalizou Vossa Excelência em tribuna. Sou pai de família como Vossa Excelência, aliás, tenho filhos quase da sua idade e, trago comigo o peso da experiência dos cabelos brancos e a mais absoluta certeza de que posso entregar minha vida pregressa ao revirar total das suas intenções e não encontrará uma única mácula do meu caráter e das minhas intenções nesses quase 50 anos desta vida.

Não sendo eu o criminoso e nem o pedófilo a quem vossa excelência se refere aos que enxergam expressão artística no homem nu; mesmo eu reconhecendo no homem nu uma forma de expressão, só posso aqui lamentar pela capacidade intelectual rasa de Vossa Excelência e da mais rasa ainda capacidade de conhecer, representar, se expressar ou se ver representado em qualquer forma de arte, já que Vossa Excelência demonstra nem saber o que é arte, suas manifestações e expressões, que arte pode ser interpretada sob o princípio coletivo ou da individualidade de cada ser.

Ao final, me valendo aqui do meu espaço que não lhe custa nada, uma vez que Vossa Excelência não teve esta mesma cortesia e usou para externar suas abobrinhas o espaço que me custa o tostão da minha fração pública correspondente, gostaria de deixar claro que admiro vosso trabalho pela causa animal e espero que consiga desenvolvê-lo a contento, para que assim possa nos deixar uma contrapartida que nos recompense de todo o seu desconhecimento manifesto nas outras matérias, que não nas dos animais!!!

Roberto Martins Lamparina

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