Folha Regional

Deixar com o outro o que é do outro

Por esses dias tenho feito um exercício que não anda sendo uma tarefa fácil para mim. Apesar de muito reservada e as vezes até muito realista, guardo dentro de mim um coração muito grande. O problema é que apesar do tamanho, cabem poucas pessoas nele, então aqueles que lá habitam ocupam um espaço imenso e isso faz com que eu sinta demais.

Quando eu amo, eu amo demais, e essa intensidade faz com que as vezes eu me de mal. Eu não acho ruim ser assim, pois sei que dessa maneira qualquer sentimento meu sempre será verdadeiro e por mais que um dia me faça sofrer, por muitas vezes me faz extremamente feliz.

Acontece que sendo assim, eu descobri que muitas vezes esqueço de deixar com o outro o que é do outro e é exatamente esse exercício que estou praticando. Tenho mania de querer cuidar de tudo, proteger aqueles que eu amo, alertar, cuidar, quando eu gosto de alguém eu realmente me sinto responsável por aquela pessoa, como se eu pudesse controlar as atitudes e escolhas dela.

Demorou um tempo para eu perceber que o problema não está em ser intensa demais, mas sim em não deixar com o outro o que é do outro.

Sei que parece mais um desabafo eu escrever isso aqui e não deixa de ser, mas na verdade é um alerta, pois sei que muitos são como eu. Não aceitamos que o outro pode não sentir como a gente, não aceitamos que o outro pense diferente, que o outro erre, que o outro siga caminhos diferentes do nosso.

Quando passamos a carregar apenas as nossas escolhas e nossas responsabilidades a vida passa a ficar bem mais leve. Todos nós temos o poder da escolha e do livre arbítrio e dessa maneira cada um escolhe qual caminho seguir, baseado na sua história, sua experiência e seus objetivos. É muito bom encontrar alguém que escolha o mesmo caminho que você, caminhar junto é uma das melhores sensações do mundo. Sempre acreditei que ninguém vai muito longe sozinho. Mas, a partir do momento que alguém decidir mudar a rota, deixe-o ir, a escolha é dele e isso não compete mais a você nem a ninguém, mesmo que você saiba que o outro caminho não leva a lugar nenhum ou é mais difícil e perigo, a escolha do outro é de responsabilidade dele. Pode ser as rotas sigam sempre distintas ou pode ser que o futuro se encarregue de algum dia cruzar os caminhos de volta e aí você terá o coração e a consciência tranquila de que cada um carrega consigo as suas escolhas e as experiência que resultaram delas e nada mais que isso.

Percorrer nosso caminho nos responsabilizando pelo caminho do outro cansa demais. Levar na bagagem só o que é meu e deixar algumas coisas para trás não tem sido fácil, mas posso dizer com toda certeza que tem me tornado muito mais leve e madura.

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