A essência do legado

“Meu coração não se cansa, de ter esperança de um dia ser tudo o que quer!” (Coração vagabundo – Caetanos Veloso)
Com a morte de Dom Paulo Evaristo Arns na semana que passou, é inevitável algumas reflexões sobre como queremos nos apresentar diante de nossa morte.
Não é pensamento mórbido ou piegas, é apenas uma constatação: como queremos ser lembrados?
Nos dedicamos a vida inteira fazendo planos, programações, caminhos na busca por satisfação constante e muitas vezes é algo inalcançável, diria até doentio e sem êxito. Uma espécie de insatisfação crônica, que nos persegue em sonhos impossíveis e rotas sem direção.
Na busca pelo tesouro real, encontramos o ouro de tolo.
Me reporto sempre aos períodos de infância onde simplificávamos as coisas. Nossos sonhos eram mais palpáveis, como os de brincar com os irmãos, inventar novas brincadeiras, conviver com os vizinhos, com os amigos da escola, esperar pelos pais nos escondendo atrás da porta, a ansiedade da volta às aulas, aprendendo desse jeito, o passo a passo no processo de crescimento físico e mental – acompanhado da simplicidade à vida plena.
Mas aprendemos a complicar as coisas. Vamos agregando valores que causam um impacto de exigência tamanha que nossas almas não suportam a dor e nos ferimos profundamente quando fracassamos. Se não bastasse a nossa culpa, culpamos nossos familiares, culpamos a sociedade. De frustração em frustração, de desistência em desistência, morremos para a vida.
Como queremos ser lembrados? Dom Paulo será sempre lembrado por ser defensor dos direitos humanos e da democracia. Sua prioridade era pela esperança e pela solidariedade. Pergunto: Que padrão de exemplo você quer deixar como legado?
Sugiro que deixe um exemplo de pessoa atuante, pró-ativa, que foi decisiva na vida de alguém, na sua comunidade, na sua casa. Mostre seus sonhos, mas demonstre sonhos possíveis, sonhos que levem um legado perante o “útil”. Que seja um legado de ensinamento profissional, que seja um legado de ensinamento cristão ou altruísta em alguma linha espiritual, em atividades beneméritas, mas onde as pessoas o reconheçam como alguém servidor nesse mundo.
Mas, mais importante que um legado, é poder ter realizado um discipulado. Fazer as pessoas crescerem e aprenderem como fazer aquilo que você realiza de melhor, me parece ser a essência do legado.
Temos uma capacidade criadora e criativa para gerar conhecimento, gerar afeto, gerar crescimento para si e para os outros, mas que muitas vezes vai para a cova de um cemitério. Verdade!
Dizem que o cemitério é o lugar mais criativo que existe. É onde está a música mais linda não composta, é o lugar onde há a poesia mais bela jamais escrita, a obra prima jamais pintada.
Será que seu legado foi dividido para o crescimento e encantamento de outros?
O pensamento que fica é o da multiplicação das ações do servir e do discipulado do amor.
Em um tempo tão escasso de exemplos éticos, de confiança no próximo e esperança no futuro, sejamos a diferença em realizar algo agora, em nosso tempo. A corrente de confiança começa no círculo estreito de nossa casa, no círculo autêntico de nossa igreja, de nossa comunidade e do nosso convívio pessoal e de nosso trabalho.
Deus nos fez para brilhar e sermos luz e sal onde pisarmos nessa terra.
Pratique essa ideia e verá que deixar um legado é deixar um mundo melhor.

Ricardo Lucio Martins é Professor Mestre em Fisiologia, professor universitário pela Unifev, fisioterapeuta e
coordenador de pós-graduação em Diagnóstico por Imagem e Gerontologia

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